Mi?rcoles, 10 de septiembre de 2014

AQUI INFORMACIÓN AMPLIADA E FUENTE DE ESTA PEQUEÑA MUESTRA

Navegavam sem o mapa que faziam

(Atrás deixando conluios e conversas
Intrigas surdas de bordéis e paços)

Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o clamor de um sol inabitável

Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula a bússola tacteava espaços

Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente a frente


1979
In Navegações, 1983

CON A SUA FILHA

Sophia com a filha Sofia, em Nova Iorque. Fotografia de Pepe Diniz, 1991

MSP «Navegavam sem o mapa que faziam» é um dos versos mais assombrosos de toda a poesia que tenho lido. Aparece em Navegações, o último livro de poemas publicado até ao momento por Sophia, no ano de 1983. Hoje, ela está de acordo em caracterizar pelo dizer desse verso o movimento essencial da sua escrita.
Há coisas em que uma pessoa navega tacteando. Houve uma fase em que reflecti muito sobre a natureza da escrita. Agora não me interrogo muito sobre o modo, o quê e o como do que escrevo. Vou navegando. Vou encontrando, vou dizendo o que surge e o que faço. Sem dúvida, a palavra é uma forma de não se ser devorado pelo caos, pela confusão, pela contradição e o tumulto, apesar de ter um pacto com tudo isso e de sem isso não atingir a sua plenitude.

EPC Já agora, uma pergunta que encaixa bem aqui. Escreve, regularmente, isto é, procura ter um hábito de escrever, ou escreve por ciclos de obsessões? 
Escrevo bastante irregularmente. Às vezes por ciclos de obsessões. Por exemplo, as Navegaçõesforam escritas em duas tiradas, a primeira quando fui a Macau, a outra um ou dois anos depois, já não me lembro bem. Em geral há certos temas que começam a formar-se, mas fora disso, fora de certos ciclos como o das Navegações (que é bastante raro), normalmente escrevo de maneira muito irregular. 
(&hellipGui?o A única vez que uma viagem de avião me deu a sensação de navegação foi quando fui a Macau. No avião uma pessoa é empacotada de um lado para o outro. Mas nessa viagem muito comprida, eu lembro-me de, depois de passarmos por cima do deserto e vermos aqueles poços de petróleo a arder, descermos na Arábia com imenso calor, – especialmente para mim que vinha de Londres... – de repente ter a sensação da «navegação».
E escrevi as Navegações por causa disso e um pouco porque quando eu ia no avião e de madrugada ouvi aquelas vozes celestiais que há nos aviões dizerem: «Estamos a sobrevoar a costa do Vietname». E eu fui para o andar de cima (o avião tinha dois andares), espreitei e estava uma madrugada radiosa: era a entrada na Ásia! Um céu azul com umas nuvens que depois aparecem no poema descritas como as «garças», eram nuvens «esgarçadas». Via-se a costa do Vietname, uma costa de verdura espessa com uma longa praia a bordar a verdura e depois no mar havia três ilhas de coral azul. O azul das ilhas, quase roxo, depois a laguna azul mais claro, depois o azul do mar e o azul do céu; tinha-se a impressão de que as ilhas eram os olhos azuis do mar... Era uma beleza inacreditável e eu pensei «O que terá sido chegar aqui desprevenido?» – quer dizer, dobrar um cabo, e não se sabe se do outro lado está um abismo, um deserto ou uma ilha paradisíaca. 
continua...


Lisboa

Digo:
«Lisboa»
Quando atravesso — vinda do sul — o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas —
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
— Digo para ver

1977

In Navegações, 1983

Para Atravessar Contigo 
o Deserto do Mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

in Livro Sexto, 1962

Atelier do Escultor do Meu Tempo


Uma nudez geométrica
Implanta nos espaços sucessivos
O vazio propício à aparição dos fantasmas

É aqui que as estátuas mostram
A necessidade sem discurso dos seus gestos

Exiladas da vida e da cidade
Exiladas do tempo
Elas convocam
O fragmento a mutilação os destroços

O peixe que navega sem perturbar o silêncio

 

in Geografia, 1967





Tags: SOPHIA DE MELLO, POEMAS, PORTUGAL

Publicado por karlotti @ 23:09
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